
Microbioma e o diagnóstico de autismo
Estudo da Universidade de Hong Kong revela 11 biomarcadores orais com potencial para triagem precoce do transtorno em crianças
O número de diagnósticos de autismo tem crescido em todo o mundo — e o Brasil segue essa tendência. Segundo o Censo 2022 do IBGE, cerca de 2,4 milhões de pessoas declararam ter transtorno do espectro autista (TEA), o que corresponde a 1,2% da população com dois anos ou mais. Na faixa de 5 a 9 anos, a prevalência chega a 2,6% (ou uma em cada 38 crianças)1.
UM NOVO OLHAR VINDO DA ODONTOLOGIA
Nesse cenário de crescimento, uma descoberta recente traz a esperança de novas abordagens diagnósticas — e coloca a Odontologia no centro da conversa. Pesquisadores da Universidade de Hong Kong descobriram que a microbiota oral — o conjunto de microrganismos que habitam a boca — pode ser usada como biomarcador precoce para identificar o TEA em crianças.
O estudo, intitulado Alterations of oral microbiota in young children with autism: unraveling potential biomarkers for early detection e publicado na revista Journal of Dentistry, analisou amostras de placa dentária de 55 crianças de 3 a 6 anos — 25 delas com autismo e 30 com desenvolvimento típico —, por meio de sequenciamento 16S rRNA. Os cientistas observaram que as crianças com TEA apresentaram menor diversidade bacteriana e uma composição microbiana distinta em relação ao grupo de controle. Foram identificadas 11 espécies bacterianas com potencial como biomarcadores para distinguir os grupos: seis mais associadas ao TEA (Microbacterium flavescens; Leptotrichia HMT-212; Prevotella jejuni; Capnocytophaga leadbetteri; Leptotrichia HMT-392; Porphyromonas HMT-278) e cinco mais prevalentes no controle (Fusobacterium nucleatum subsp. polymorphum; Schaalia HMT-180; Leptotrichia HMT-498; Actinomyces gerencseriae; Campylobacter concisus).
Com base nessas informações, os pesquisadores desenvolveram um modelo de predição que alcançou 81% de precisão na distinção entre os dois grupos utilizando um swab oral, e sugere um caminho prático para a triagem durante consultas de rotina.
IDADE E DIAGNÓSTICO: O PAPEL DA DETECÇÃO PRECOCE
Atualmente, o diagnóstico de TEA costuma ocorrer por volta dos 5 anos de idade; casos mais leves geralmente são detectados apenas quando as demandas sociais superam as capacidades individuais. A possibilidade de uma triagem biológica baseada em microrganismos da cavidade oral representa um avanço importante na identificação de sinais precoces do transtorno. Segundo a professora Cynthia Kar Yung Yiu, da Faculdade de Odontologia da Universidade de Hong Kong, “essa inovação abre caminho para uma ferramenta de triagem simples e não invasiva, que pode ajudar a identificar o autismo em idade precoce, quando a intervenção tem maior impacto”.
O EIXO MICROBIOMA-CÉREBRO
Os resultados sustentam uma hipótese que vem ganhando força na ciência: o eixo microbioma-cérebro. Esse conceito propõe que os microrganismos presentes na boca e no intestino podem influenciar o funcionamento cerebral, afetando processos imunológicos, metabólicos e comportamentais. Alterações nesse equilíbrio — conhecidas como disbiose — estariam associadas a inflamações e possíveis impactos no neurodesenvolvimento infantil.
IMPLICAÇÕES PARA A ODONTOLOGIA
Para a classe odontológica, o estudo reforça o papel do dentista como profissional-chave no acompanhamento da saúde infantil. Durante consultas regulares, o cirurgião-dentista pode contribuir para o rastreio precoce de condições neurológicas, observando alterações microbianas e colaborando com equipes interdisciplinares em avaliações complementares.
OS PRÓXIMOS PASSOS DA PESQUISA
Embora o estudo ainda esteja em fase inicial, os resultados abrem espaço para novas possibilidades de diagnóstico precoce e intervenção. O próximo passo é validar os biomarcadores bacterianos em amostras maiores e mais diversas para entender como essas comunidades microbianas se relacionam com o desenvolvimento infantil e o TEA.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
- Canal Autismo. Brasil conhece, pela 1ª vez, seu número oficial de diagnóstico de autismo: 1 em 38, segundo IBGE [Internet]. 2025 mai 23. Disponível em: https://www.canalautismo.com.br/noticia/brasil-conhece-pela-1a-vez-seu- -numero-oficial-de-pessoas-com-diagnostico-de-autismo-1-em-38/.
PARA SABER MAIS:
Tang JW-Y, Hau CC-F, Tong WM, Watt RM, Yiu CK-Y, Shum KK-M, et al. Alterations of oral microbiota in young children with autism: unraveling potential biomarkers for early detection. J Dent. 2025;152:105486. doi: 10.1016/j.jdent.2024.105486.