Da boca ao coração

Doenças periodontais, inflamação sistêmica e hipertensão formam uma conexão cada vez mais bem documentada pela ciência. Medir a pressão arterial e olhar além da boca já é parte essencial da Odontologia.

A relação entre saúde bucal e doenças cardiovasculares deixou de ser hipótese e passou a integrar o consenso científico. Processos inflamatórios originados nas gengivas podem ultrapassar a cavidade oral, alcançar a corrente sanguínea e impactar órgãos vitais — inclusive o coração. Em razão disso, consultórios odontológicos podem ter um papel estratégico na identificação precoce de fatores de risco, como a hipertensão arterial. Com mais de três décadas de atuação clínica e acadêmica, o cirurgião-dentista Vinícius Pedrazzi, professor titular da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FORP-USP), detalha as evidências que embasam essa conexão, fala dos riscos do atendimento odontológico em pacientes não controlados e explica por que a integração entre dentistas e médicos é decisiva para a segurança e o cuidado integral do paciente. Confira a seguir.

O consultório odontológico pode ser considerado um espaço estratégico para a identificação precoce da hipertensão arterial?

O cirurgião-dentista deveria incluir na rotina de exames clínicos também os extrabucais, como a verificação da pressão arterial, o índice glicêmico com medidor portátil, a temperatura corporal e palpações de músculos extrabucais do crânio, como temporais e masseteres, e dos trapézios, procurando por nódulos ou pontos de tensão, que podem causar maloclusão dentária, um problema de mau relacionamento entre os dentes dos maxilares (superiores) e da mandíbula, levando a dores dentais, musculares e posturais (cabeça, pescoço, ombros e coluna). Depois do diagnóstico, o cirurgião-dentista pode atuar clinicamente, reabilitando o sistema estomatognático e devolvendo a função mastigatória ao paciente por meio de restaurações ou próteses.

Qual é o momento mais adequado para aferir a pressão arterial? Essa conduta deve ser adotada para todos os pacientes ou apenas para grupos de risco?

A anamnese é fundamental para estabelecer uma relação de proximidade entre o clínico e o paciente, que fica mais tranquilo. É importante frisar que o profissional deve usar linguagem acessível e fazer perguntas que possam ser compreendidas pelo paciente. Isso ajuda a mitigar a “síndrome do avental branco”, que comprovadamente eleva os níveis de pressão arterial. Há toda uma sistemática para uma correta mensuração: o manguito deve estar posicionado à altura do coração (posição isobárica), as pernas devem estar descruzadas e o corpo, relaxado. Assim, medir logo após a anamnese é uma boa estratégia. A conduta deve ser uma prática clínica conduzida em todos os pacientes. Nos hipertensos, é recomendado checar a PA novamente durante o procedimento clínico, sempre que possível, além de tentar manter o paciente calmo. Música tranquila ao fundo e até cromoterapia (luzes em monitor de TV do consultório, por exemplo) podem ajudar a manter a pressão sob controle.

Quais são os principais riscos clínicos de realizar procedimentos odontológicos em pacientes com hipertensão não controlada?

Os principais riscos são justamente o paciente ficar ansioso e sentir dor ou desconforto, o que pode levar a episódios de aumento da pressão arterial. O uso de anestésicos locais em associação com vasoconstritores é um pouco controverso. As boas práticas de emergência odontológica indicam que a administração de um tubete de anestésico com vasoconstritor é mais segura do que a de alguns sem vasoconstritor. Há um, especificamente, que é uma associação do sal anestésico cloridrato de prilocaína com o vasoconstritor octapressina (felipressina), que tem indicação precisa para pacientes com cardiopatias, diabetes e mesmo hemofilia.

Além da hipertensão, que outros fatores de risco para doenças cardiovasculares podem ser percebidos por meio de sinais ou condições bucais?

A própria presença de doença periodontal, gengivite, palpitações, gotículas de suor no filtro dos lábios ou na fronte (testa), olhar congelado, podem indicar pânico ou ansiedade. Nesses casos, o profissional deve reavaliar a pressão arterial do paciente e, se for o caso, interromper ou modificar o atendimento. Uma informação importante: em hipótese alguma o profissional deve fazer profilaxia com jato de bicarbonato de sódio em pacientes hipertensos ou se a PA estiver alta. A entrada de sódio no organismo — seja pela absorção na região da gengiva (sulco gengival), seja pela ingestão (deglutição) — poderia interferir na bomba de sódio e potássio das células, o que alteraria o funcionamento do coração, podendo causar fibrilação cardíaca e, em casos extremos, levar à morte. Também é fundamental avaliar na anamnese as condições renais, muito diretamente associadas à hipertensão.

Ao identificar níveis elevados de pressão arterial, qual deve ser a conduta do cirurgião-dentista? Em que situações o atendimento deve ser adiado e o paciente encaminhado para avaliação médica?

Se o paciente tem hipertensão arterial não controlada, doença renal crônica ou se tiver sintomas de ansiedade durante o atendimento odontológico, o profissional deve avaliar a possibilidade de entrar em contato com o cardiologista ou nefrologista dele. Pacientes com cardiopatias ou nefropatias crônicas precisam estar estabilizados e demandam atendimento multiprofissional.

Em sua visão, a incorporação sistemática da aferição da pressão arterial nos consultórios odontológicos pode contribuir para reduzir o subdiagnóstico da hipertensão no Brasil?

Certamente. Hoje, felizmente, há uma atuação interdisciplinar e interprofissional muito próxima e cordial entre médicos e cirurgiões-dentistas, o que é extremamente benéfico para a segurança do paciente. Os cardiologistas mais atualizados não fazem cirurgias cardíacas (a não ser as de emergência) sem antes encaminhar o paciente a um periodontista para completa higiene bucal, remoção de cálculo dentário e biofilme dentário. Em alguns casos, é feita a remoção de raízes ou de dentes condenados, sempre com a orientação precisa dos médicos, em consonância com o cirurgião-dentista. Isso porque alguns procedimentos, em determinadas condições, exigem medicação antibiótica ou anti-inflamatória prévia.

Scroll to Top