

Aspiração e deglutição de instrumentos pelo paciente: o que fazer?
A segurança no consultório odontológico envolve a prevenção e o preparo para lidar com eventos adversos. Aqui, tudo o que você precisa saber para agir da maneira correta em casos de acidente
Objetos pequenos fazem parte do dia a dia do cirurgião-dentista e são usados corriqueiramente na cavidade oral dos pacientes. Por mais que o profissional seja cuidadoso, acidentes podem acontecer. A aspiração ou a deglutição acidental de instrumentos durante o atendimento odontológico, por exemplo, podem transformar um procedimento em uma emergência médica. Embora raro, esse tipo de ocorrência exige preparo técnico, atenção constante e conhecimento de protocolos específicos para garantir a segurança de quem está sendo atendido e evitar consequências mais sérias. O ideal, é claro, é focar na prevenção, adotando práticas que garantam a qualidade assistencial, como a manutenção adequada de equipamentos e o uso correto de barreiras protetoras. Além disso, é fundamental conhecer manobras de emergência. Nesta entrevista, Rodolfo Francisco Haltenhoff Melani, professor titular do Departamento de Odontologia Social e docente responsável pela área de Odontologia Legal da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP), esclarece o que difere erros profissionais de acidentes clínicos e aponta medidas de biossegurança que ajudam a reduzir o risco desses episódios.
Ocorrências como a deglutição ou a aspiração de instrumentos durante o atendimento odontológico são comuns ou raras?
Um ponto inicial importante que envolve essa questão é diferenciar os conceitos de erro de conduta e acidente. O acidente clínico se caracteriza por ser um acontecimento mais inesperado do que imprevisível, ou seja, cercado de aspectos que não poderiam ser, de forma clara, antecipadamente previstos. Por outro lado, o que evidencia a intercorrência como falha profissional é a não observância antecipada do grau de previsibilidade, o desdobramento que, necessariamente, deveria ter sido considerado. Portanto, devem ser adotados com rigor os protocolos clínicos que são periodicamente atualizados e divulgados na literatura científica. Os chamados eventos adversos tendem a ser raros, mas potencialmente comprometedores à saúde do paciente.
Quais instrumentos ou materiais estão mais sujeitos a ser engolidos ou aspirados pelos pacientes?
Há uma série de instrumentos que poderiam ser aspirados acidentalmente, alojando-se nas vias aéreas superiores e inferiores, como faringe, laringe e traqueia. Entre eles, podemos citar as raízes resíduas, os instrumentos endodônticos, chaves de manuseio de componentes ou de ativação de aparelhos ortodônticos, implantes odontológicos e instrumentos de rotação (diversos tipos de broca). Os objetos passam a ser corpos estranhos, causando infecções, perfurações ou obstruções.
Há perfis de pacientes mais vulneráveis a esse tipo de evento, como crianças, idosos ou pessoas com necessidades especiais?
Existem situações em que o paciente pode apresentar alguma dificuldade motora ou mesmo de compreensão plena do procedimento a que será submetido. No entanto, devemos estar atentos aos protocolos indicados para cada caso e valorizar o planejamento de intervenções.
Se um paciente engolir ou aspirar um instrumento, quais devem ser as primeiras medidas tomadas pelo dentista?
O cirurgião-dentista deve adotar ações imediatas de remoção do objeto. O profissional deve conhecer manobras emergenciais para a retirada do corpo estranho, evitando consequências que comprometam a saúde do paciente. Se o paciente estiver consciente, peça-lhe que tussa e incentive-o a continuar a fazê-lo. Caso o objeto não seja expelido e o paciente não conseguir respirar, a manobra de Heimlich, com compressões abdominais, deve ser realizada em adultos. Em bebês e crianças pequenas, devem ser feitas manobras com golpes nas costas e compressões torácicas, seguindo os protocolos de primeiros socorros indicados pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Caso a criança fique inconsciente, é importante acionar um serviço de emergência. A ligação pode ser feita pelo celular, que pode permanecer no viva-voz para permitir que as orientações sejam seguidas. Se a criança estiver desmaiada, ela deve ser colocada, com a barriga para cima, em uma superfície rígida. A seguir, abra a boca dela e, se conseguir visualizar o objeto, tente retirá-lo utilizando os dedos em forma de pinça. Se não o vir, não ponha os dedos às cegas, pois poderá empurrar o objeto.
Como são feitos os registros e as notificações dos casos?
O cirurgião-dentista deve notificar a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a deglutição de objeto estranho durante o atendimento por meio do sistema Notivisa – Assistência à Saúde. Se atuar de forma autônoma, ele pode se cadastrar como profissional liberal; se for representante de uma clínica, é necessário que a instituição esteja previamente registrada no Portal Gov.br/ Anvisa com CNPJ e gestor responsável. O evento deve ser classificado como “incidente relacionado a falha na assistência odontológica – ingestão ou aspiração de objeto estranho”. No formulário, devem ser descritos o ocorrido, as ações tomadas, o tipo de objeto e o impacto ao paciente, sem mencionar nomes. Casos que apresentem comprometimentos graves ou que envolvam óbito devem ser notificados em até 72 horas; os demais, até o 15º dia útil do mês seguinte. A notificação é obrigatória e contribui para a vigilância e a melhoria da segurança do paciente.
Que boas práticas de biossegurança podem reduzir a ocorrência desses eventos no consultório?
Verificar a qualidade e a manutenção dos equipamentos, evitando, assim, o desprendimento de brocas durante o preparo cavitário. Também é essencial a adoção dos protocolos indicados por cada especialidade. O uso de lençol de borracha nas intervenções endodônticas e de um fio dental amarrado a instrumentos, como limas e chaves utilizadas na ativação de aparelhos ortodônticos ou na implantodontia e, quando possível, às peças protéticas, como próteses unitárias, e aos próprios implantes, funcionam como uma barreira para prevenir a aspiração ou a deglutição de pequenos objetos e instrumentos durante procedimentos.
Como um dentista deve se preparar para lidar com esse tipo de evento adverso?
O planejamento e a orientação ao paciente, apontando as características da intervenção, são fundamentais, pois permitem a colaboração dele durante o procedimento (período intraoperatório), o que torna a intervenção mais segura.