COMO RECUPERAR A ESTÉTICA DE DENTES ESCURECIDOS

Restaurações diretas com resina composta são as mais empregadas devido à praticidade, ao tempo e ao custo, enquanto as indiretas com materiais cerâmicos são mais indicadas em grandes destruições

Narciso Garone Netto 
Renato Carlos Burger
Guilherme Martinelli Garone

As causas de alteração na cor dos dentes podem ser tanto intrínsecas quanto extrínsecas. As alterações intrínsecas são as mais difíceis de resolver e podem aparecer em virtude de alterações ocorridas no período de formação do germe dental, como amelogênese imperfeita, hipoplasia do esmalte, fluorose dental, uso de tetraciclinas, dentinogênese imperfeita, distúrbios hepáticos, porfirismo congênito e eristoblastose fetal. Podem também ocorrer alterações intrínsecas após a erupcão dos dentes por traumatismos, medicação intracanal, hemorragias na estrutura interna dos dentes, necrose distrófica da polpa, fatores iatrogênicos, utilização de materiais obturadores à base de iodofórmio e, ainda, esclerose da dentina apresentando-se do marrom até o negro. O escurecimento dental ocorre por cromóforos (isto é, pigmentos) impregnados na estrutura dental que formam uma molécula capaz de refletir luz em um comprimento de onda visível pelo olho humano, cuja intensidade é superior àquela refletida pela estrutura dental, predominando, assim, a cor do pigmento. O resultado observado é o dente escurecido.1

As pigmentações extrínsecas, como diz o nome, são externas. Localizam-se na coroa dental por impregnação de corantes dos alimentos, como café e chá, além do acúmulo de nicotina (e outras substâncias presentes no cigarro). Além disso, materiais dentários, como o eugenol, o óxido de zinco e o amálgama, também podem ocasionar manchas extrínsecas. O óxido de zinco e o eugenol podem escurecer a estrutura dentária dependendo do tempo de permanência da restauração temporária e da relação pó/líquido. Já o amálgama de prata, ao sofrer corrosão e oxidação, libera íons metálicos, que penetram nos túbulos dentinários, causando alterações irreversíveis. Bactérias cromógenas, bem como o próprio acúmulo de placa, podem ocasionar alterações desse caráter. Lesões de cáries, tanto agudas como crônicas, e percolação marginal em restaurações comprometidas também podem provocar pigmentações exógenas.2

Os pigmentos extrínsecos sobre a estrutura dental são removidos pela limpeza dos dentes, pela microabrasão ou pelo clareamento. Nas alterações intrínsecas, entretanto, são necessários procedimentos mais invasivos, que implicam no desgaste e/ou restauração dos dentes.

As utilizações de materiais restauradores estéticos são apropriadas para a restauração de dentes escurecidos. Restaurações diretas com resina composta são as mais empregadas devido à sua praticidade, à economia de tempo e ao baixo custo; enquanto as indiretas com materiais cerâmicos são mais indicadas em grandes destruições, tendo um custo e tempo mais elevados. Os procedimentos adesivos ao esmalte e à dentina nos permitem realizar restaurações estéticas diretas ou indiretas com ótimos resultados.3

Existem superfícies que podem comprometer o processo adesivo, como, por exemplo, esmalte aprismático e fluorótico, e também a dentina esclerosada. Nesses casos, os substratos precisam ser parcial ou completamente removidos, ou ainda ao menos asperizados para se obter uma correta adesão.4,5 Isso porque a dentina esclerótica apresenta-se hipermineralizada. Em decorrência, os procedimentos adesivos disponíveis atualmente para tais modificações dentais são dificultados, pois ocorre a obliteração parcial ou total dos túbulos dentinários por depósitos minerais (hipermineralização) ou por depósitos de dentina peritubular (esclerose).6,7 Alterações no protocolo convencional de preparo adesivo para dentina (Etch & Rinse) são preconizados como o pré-tratamento com ácido fosfórico ao usar sistemas adesivos autocondicionantes; a asperização causando rugosidade na superfície dentinária esclerótica com pontas diamantadas; o aumento nos tempos de aplicação de sistemas adesivos; o pré-condicionamento da dentina com EDTA; o uso de laser Ed: YAG/Nd: YAG; e a duplicação do tempo de condicionamento ácido.8

1. TODOS OS DENTES ESCURECIDOS

Quando todos os dentes estão escurecidos por substâncias extrínsecas, o clareamento dental é a solução apropriada.

2. DENTES POSTERIORES ESCURECIDOS

2.1 MANCHAS INTRACAVITÁRIAS

Manchas decorrentes de processos de cárie lenta e/ou restaurações antigas em amálgama que tornaram a dentina remanescente esclerosada e escura (Fig. 1).

Figura 1: Dentina manchada por corrosão de amálgama e/ou esclerose da dentina

2.1.1 Solução com restauração direta com resina composta

A utilização da resina composta flow opaca pode criar áreas opacas na restauração, por isso, muitas vezes precisa ser misturada com uma resina composta flow que tenha uma cor apropriada o suficiente para mascarar a dentina esclerosada manchada sem alterar a cor final da restauração (Fig. 2). A restauração é finalizada utilizando-se resina composta do tipo dentina e do tipo esmalte (Fig. 3).

Figura 2: Após a fotoativação do adesivo, foi aplicada uma mistura de resina composta flow opaca com A3
Figura 3: Restauração de resina composta com caracterização oclusal discreta

2.1.2 Solução com inlay, onlay e coroas cerâmicas

Enviar fotografias dos dentes já preparados, para que o técnico em prótese saiba onde aplicar cerâmicas opacas, de modo a oferecer como resultado final a cor desejada.

3. DENTES ANTERIORES ESCURECIDOS

3.1 RESTAURAÇÕES DIRETAS EM DENTES ANTERIORES

É comum ocorrer o escurecimento das estruturas dentinárias em lesões cervicais cariosas ou não cariosas e em lesões cariosas das faces proximais de dentes anteriores. Pode ocorrer a esclerose da dentina e/ou o manchamento por agentes extrínsecos.

A solução é obtida pela aplicação de resina composta tipo flow com a opacidade necessária e, a seguir, pela restauração com resina composta para se obter a estética desejada.

Em restaurações de classes III, IV e V, a estrutura dental deve ser preparada para receber e reter a restauração. A utilização de adesivos com condicionamento ácido ou adesivos autocondicionantes não requer a asperização prévia da estrutura dental;9 entretanto, as soluções clínicas são decididas pelo clínico no momento da restauração. A utilização do bisel nas margens da cavidade permite uma melhor solução estética.

A solução estética é obtida pela aplicação de resina composta tipo flow com a opacidade necessária e, a seguir, resina composta do tipo dentina e esmalte para se obter a cor e a translucidez nas áreas desejadas.

Restaurações extensas, como facetas em resina composta, também podem ser realizadas como uma solução rápida que não envolva a necessidade de coroas e facetas cerâmicas. Facetas diretas podem ser realizadas utilizando-se, após a aplicação do sistema adesivo uma camada de resina composta flow opaca e, a seguir, resinas compostas híbridas com menor translucidez, finalizando-se com uma resina composta de maior lisura para obter uma superfície final com bom polimento e brilho.10

3.2 RESTAURAÇÕES INDIRETAS EM DENTES ANTERIORES

Em casos de dentes desvitalizados e escurecidos, podemos realizar o clareamento interno de até quatro sessões. Isso nem sempre produz resultados satisfatórios, podendo ocorrer reabsorção interna radicular. Quando o clareamento não parece ser satisfatório, é necessário o recurso de facetas ou mesmo coroas cerâmicas com opacidade para alcançar a cor desejada.

Soluções protéticas (facetas e coroas cerâmicas) são mais utilizadas quando realizamos a reconstrução de vários dentes que apresentam alguma perda estrutural e precisamos reabilitar os guias funcionais.

No caso da fig. 4, podemos ver que o problema não era apenas a alteração da cor nos elementos 13 a 23, mas também da forma e da oclusão. Após o clareamento de todos os dentes, foram realizadas coroas cerâmicas com estruturas opacas e translucidez nas áreas apropriadas, além de uma forma com estética adequada. Com esse ajuste das formas, foi possível restabelecer não só a estética, mas também os guias funcionais em lado de trabalho (guias caninos) e o guia nos dentes anteriores em movimento de protrusão (Fig. 5).

Figura 4: Dentes anteriores sem estética devido ao manchamento e a forma anatômica imprópria
Figura 5: Após o clareamento de todos os dentes, foram executadas coroas cerâmicas com forma e estética apropriadas

REFERÊNCIAS

  1. Campagnoli KR, Scholz N. Clareamento de dentes desvitalizados: técnica LED com peróxido de hidrogênio. Rev Clín Pesq Odontol. 2008;4(2):107-12.
  2. Cavalheiro JP. Influência do desafio erosivo nas propriedades mecânicas de diferentes materiais restauradores; na performance de restauração em dentes decíduos; e na adesão de bráquetes em dentes com fluorose dentária. Tese Doutorado. Universidade Estadual Paulista. Araraquara. (UNESP).2020.
  3. Demiryürek EO, Külünk S, Saraç D, Yüksel G, Bulucu B. Effect of different surface treatments on the push-out bond strength of fiber post to root canal dentin. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol Endod. 2009 Aug;108(2):e74-80. doi: 10.1016/j.tripleo.2009.03.047. PMID: 19615650.
  4. Duke ES, Lindemuth J. Variability of clinical dentin substrates. Am J Dent. 1991; 4(5):241-6. PMID: 1810335.
  5. Ermis RB, De Munck J, Cardoso MV, Coutinho E, Van Landuyt KL, Poitevin A, et al. Bonding to ground versus unground enamel in fluorosed teeth. Dent Mater. 2007;23(10):1250-5. Epub 2007 Jan 9. PMID: 17215035.
  6. Tay FR, Pashley DH. Resin bonding to cervical sclerotic dentin: a review. J Dent. 2004 Mar;32(3):173-96. doi: 10.1016/j.jdent.2003.10.009. PMID: 15001284.
  7. Van Meerbeek B, Braem M, Lambrechts P, Vanherle G. Morphological characterization of the interface between resin and sclerotic dentine. J Dent. 1994 Jun;22(3):141-6. doi: 10.1016/0300-5712(94)90197-x. PMID: 8027456.
  8. LOPE GC. Adesão dentinária: efeito do grau de mineralização e do tempo de condicionamento ácido. Tese Mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina . Florianópolis, 2002.
  9. Loguercio AD, Luque-Martinez IV, Fuentes S, Reis A, Muñoz MA. Effect of dentin roughness on the adhesive performance in non-carious cervical lesions: A double- -blind randomized clinical trial. J Dent. 2018;69:60-9. PMID: 28962842.
  10. Hoeppner MG, Pereira SK, Siebel Neto E, Camargo LNG. Tratamento de dente com alteração cromática: faceta direta com resina composta. UEPG Ci Biol Saúde. 2003;9(3/4):67-72.

Narciso Garone Netto

Prof. Titular de Dentística da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP)

Renato Carlos Burger

Doutor em Dentística pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP)

Guilherme Martinelli Garone

Mestre em Dentística pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP)

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