

Entendendo o papel da fibra para o reforço de restaurações de dentes endodonticamente tratados
Confira um guia prático para o cirurgião-dentista
Emerson Nakao
Rodolfo F. Haltenhoff Melani
Uma recente revisão sistemática com meta-análise publicada em outubro de 2025 no Journal of Prosthetic Dentistry trouxe uma importante contribuição a respeito do efeito do uso de fibras como parte da reconstrução de dentes endodonticamente tratados na resistência mecânica de restaurações indiretas parciais. Uma vez que a restauração final de um dente tem como um de seus objetivos a proteção do remanescente dentário contra fraturas, agregar fibras ao processo de reconstrução da porção dentinária perdida — com o intuito de otimizar a resistência do método de preenchimento com resina composta — pode representar uma contribuição positiva ao processo. Embora não se trate de uma técnica recente, já que há relatos na literatura desde a década de 1980, o estudo reafirma e amplia o entendimento sobre seu papel na restauração de DET.

Primeiramente, a restauração de dentes endodonticamente tratados é um tema recorrente dentro da Odontologia porque, apesar da evolução da ciência, ainda não há uma resposta definitiva sobre qual é a melhor forma de se restaurar um dente tratado endodonticamente. Essa não é uma matéria com uma resposta padronizada e pronta para utilizar em todos os casos. Isso porque existem variáveis que podem alterar o curso desse processo. Chamaremos essas variáveis de critérios técnicos, aqueles que devemos utilizar para decidir os passos seguintes ao diagnóstico, como a eleição da tratativa do problema, a definição dos materiais a serem utilizados e a necessidade ou não de inclusão de terceiros (no caso, o laboratório de prótese). Há, portanto, uma série de questões complexas, difíceis de prever e/ ou controlar. Confira no quadro ao lado algumas delas.
Para cada uma dessas perguntas — e outras mais que não constaram aqui nessa lista —, existem estudos que contribuíram para oferecer respostas ou, pelo menos, um direcionamento para uma resposta — inclusive, em edições anteriores da revista Conexão Odontoprev. Grande parte desses estudos é laboratorial, do tipo in vitro ou ex vivo, devido à complexidade de padronizar amostras e obtê-las em quantidade suficiente para a realização de um ensaio clínico randomizado controlado, nos quais todas as variáveis estejam sob controle. Isso não invalida seus resultados, apenas indica que eles não podem ser tomados como verdades absolutas aplicáveis a todos os casos.
Parta do princípio de que não há verdades absolutas e que elas dependem de um contexto, ou seja, daquilo que chamamos de critérios técnicos. Assim, é possível entender que grande parte do conhecimento que adquirimos na academia mudou (e vai continuar mudando) com o passar do tempo. Auxiliada pelos avanços tecnológicos, a ciência, em sua constante evolução, muda esse contexto, o que, inevitavelmente, transforma o que entendemos como “verdade”. Por isso, as verdades não são absolutas, mas nos ajudam a decidir qual é a melhor estratégia em cada caso.

Assim, após a obturação do sistema de canais dentários, é necessária a restauração final do dente. Essa recomendação já é amplamente reconhecida na literatura, que considera o tratamento endodôntico concluído somente após a restauração final. E por que se faz essa recomendação? Porque existe um volume expressivo de estudos observacionais (acompanhamento de casos concluídos comparados com casos não concluídos) que demonstraram haver um risco considerável de fratura dentária quando um dente recebe um tratamento endodôntico e não é realizada a restauração final. Quer dizer que haverá a fratura de todo dente tratado endodonticamente? Não. Quer dizer que todo dente fraturado deve ser extraído? Também não. Quer dizer que há risco considerável e que a restauração pode prevenir essa adversidade. Sucesso significa saber gerenciar esse risco.
Essa recomendação leva em consideração basicamente dois problemas: a infiltração e a fratura. A infiltração pode levar a recontaminação do sistema de canais, o que, por sua vez, torna necessária uma nova intervenção endodôntica, tanto por causa da infecção (aguda ou crônica) quanto pela desmineralização causada pela cárie — doença que depende não só dos hábitos e da capacidade de higiene oral do paciente, mas também de seus hábitos alimentares. Câmara pulpar cariada geralmente tem um prognóstico desfavorável, não só pelo risco de recontaminação, mas também por enfraquecer o dente aumentando o risco de fratura.
E por que um dente endodonticamente tratado é mais suscetível à fratura? Após o acesso cirúrgico à câmara pulpar — etapa que, em muitos casos, envolve a remoção de tecido cariado e de restaurações prévias e a adequação do remanescente coronário — ocorre desgaste de estrutura dentária, com consequente redução da resistência mecânica do dente. Existe, portanto, uma relação direta entre a perda de estrutura e a diminuição da resistência. Isso implica concluir que, paradoxalmente, o preparo do dente para receber um pino também contribui para diminuir sua resistência. Sendo assim, utilizar fibras de reforço como estratégia para diminuir o risco de fratura parece correto.
E como surgiu a ideia do reforço estrutural do dente com fibras? A mais conhecida delas, a Ribbond™, entrou no mercado em 1991, inicialmente indicada a contenções dentárias conservadoras e eficientes por motivo periodontal ou por avulsão. A fibra reforça a resina composta, aumentando a resistência mecânica da contenção de dentes com mobilidade. Naturalmente, passou-se a esperar uma melhor performance desse material em preenchimentos. E foi o que aconteceu, ao mesmo tempo que a Odontologia adesiva evoluiu, fazendo com que a abordagem conservadora se tornasse cada vez mais viável tecnicamente.
Quando indicar, então, um pino ou um preenchimento da câmara pulpar reforçado com fibras? A decisão deve considerar, inicialmente, a quantidade de dentina coronária remanescente, bem como alguns dos critérios já mencionados. Como regra geral, quanto mais tecido coronário, menos se indica um retentor intrarradicular. Por exemplo: um molar submetido ao acesso cirúrgico endodôntico e sem caixas proximais de uma restauração prévia seria um bom candidato ao uso de fibra. A descontinuação das cristas proximais enfraquece bastante a estrutura coronária. O sucesso, é claro, também depende de uma técnica bem executada.
Entendido isso, surge a próxima pergunta: que tipo de restauração utilizar, direta ou indireta? A literatura recomenda a análise do remanescente coronário, da localização do dente no arco, da presença da parafunção e da função — ou seja, de fatores relacionados à sobrecarga. O molar hígido, submetido apenas ao acesso endodôntico, pode ser restaurado apenas com o compósito, desde que não haja parafunção, a DVO adequada, haja normoclusão etc. Nos casos em que não haja a certeza de que esses critérios são atendidos, é indicada a cobertura das cúspides — ao menos as funcionais. Em dentes anteriores hígidos, quase sempre uma restauração direta será suficiente — sem retentor intrarradicular.
Esse apanhado de informações não tem a pretensão de estabelecer recomendações definitivas. Se você procurar na literatura sobre o tema, não encontrará “regras duras” que garantam sucesso. Além disso, a quantidade e qualidade das informações podem confundir. Por isso, precisamos não só identificar se os estudos foram produzidos em meio científico adequado, mas entendê-los como guias, como direcionadores de conduta clínica, cujas orientações vão diminuir o risco de insucessos.

Vale salientar que ter maior risco não é garantia de que vai ocorrer em 100% dos casos. Por que é importante saber disso? Porque, ao considerar essa informação em um planejamento, é possível elencar os procedimentos prioritários, ou seja, aqueles que, se realizados primeiro, podem evitar, no caso, fratura irrecuperável do dente. Destacam-se, a seguir, dois deles:
- Durante o tratamento endodôntico, o operador deve se certificar de que o dente em questão não está em sobrecarga oclusal. A periapicite pode, dependendo do grau do processo inflamatório, extruir levemente o dente, dando a sensação de “dente alto”. E isso é especialmente relevante em pacientes com parafunção. Por isso, a checagem oclusal é importante.
- Ainda durante o tratamento endodôntico, deve-se esclarecer ao paciente a importância da restauração final, ou seja, após o fim do tratamento do canal e a eliminação dos sinais e sintomas, o dente deve ser restaurado o mais rápido possível devido ao risco de fratura, que pode levar à perda do dente.
Repetir isso em todas as consultas pode parecer um exagero, mas dá a ênfase necessária a esse cuidado. Não é incomum o paciente “se dar alta” após eliminado o problema da dor endodôntica sem ter restaurado o dente. E, após a fratura, aparecer no consultório dizendo que não sabia ou que não foi avisado, ou que acabou postergando deliberadamente a finalização do tratamento por não julgá-lo importante. O que realmente importa, no entanto, é que todos façamos aquilo que nos cabe.
Esse artigo não traz respostas, só propõe mais perguntas. Perguntas são importantes para ajudar a organizar o pensamento e a tomar uma decisão consciente, com base no conhecimento disponível atualmente. Uma pergunta adicional: faria sentido utilizar a fibra para restaurar dentes não endodonticamente tratados? Sim. De acordo com estudos de boa procedência, faz. Considere, por exemplo, um dente posterior com cavidade profunda, mas sem exposição pulpar. Com o reforço da fibra, o que se espera é a melhora na resistência do conjunto dente-restauração, o que diminuiria o risco de fratura.
BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA:
1. Abidrahamani A, AziziGermi S, Khanzadeh H, Ghodsi S, Revilla-León M, Mosaddad SA. Can fiber placement influence the fracture resistance of endodontically treated teeth with indirect partial ceramic restorations? A systematic review and meta-analysis. J Prosthet Dent. 2025;134(4):1005- 17. doi:10.1016/j.prosdent.2025.06.014. Epub 2025 Jul 11. PMID: 40651903.

Prof. Emerson Nakao
Mestre e Especialista em Prótese Dentária e professor da FFO-Fundecto, fundação conveniada à Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP)

Prof. Dr. Rodolfo Francisco Haltenhoff Melani
Professor titular do Departamento de Odontologia Social e responsável pela área de Odontologia Legal do Programa de Pós-Graduação em Ciências Odontológicas, ambos na FOUSP