Menos é mais

Entenda as vantagens da intervenção mínima para a saúde bucal e integral dos pacientes

A Odontologia de Mínima Intervenção é uma tendência que está focada em fundamentos básicos como prevenção e preservação. Muito recorrente na Odontopediatria, ela também pode se destinar às demais faixas etárias. Em ambos os casos, requer um diagnóstico precoce e preciso.


“Inovações técnicas como os selantes fotopolimerizáveis trazem resultados excelentes, e o tempo de atendimento é mais rápido, proporcionando conforto aos pacientes”, explica José Carlos Imparato, especialista em Odontopediatria, Arqueologia e Radiologia e professor da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP) e do programa de pós-graduação da Faculdade São Leopoldo Mandic. Uma das maiores vantagens da intervenção mínima é o bem-estar para pacientes que possuem fobias, traumas e necessidades especiais, além de bebês e crianças.


A técnica convida profissionais a dialogar com pacientes, explicando sobre as chances de recuperação e conscientizando-os de que o dente é um órgão do corpo humano. O foco sai do tratamento de crises agudas para o planejamento da saúde bucal a longo prazo.

Por que esse tratamento pede mudanças de ponto de vista geral?

No senso comum, não se dá importância ao dente como um órgão que tem funções específicas. O mesmo ocorre em relação aos dentes decíduos, cuja preservação é importante até mesmo para a obtenção de células-tronco. No entanto, essa visão já tem avançado na formação de profissionais. Chegará o dia em que a população também entenderá e cuidará dos dentes como cuida de outros órgãos do corpo. Os dentes têm funções específicas, por isso é importante não os perder.

Acredita-se que o sucesso da intervenção mínima aumenta se a cárie não for considerada uma doença infecciosa. Essa é uma das mudanças incorporadas por esse tratamento?

Sim. Para a Odontopediatria, já está claro que a cárie não é uma doença infectocontagiosa, mas uma disbiose que se apresenta a partir do momento em que vários fatores interagem. Quando se fala em tratamento, alguns cirurgiões-dentistas são imediatistas: eles removem o que está visível, mas a cárie continua no dente do lado. Como o meio bucal continua doente, a longevidade das restaurações deixa a desejar, por melhores que sejam os materiais. Estudos clínicos não dão mais suporte para a remoção total do tecido cariado.

A intervenção mínima é a intersecção entre detecção precoce, prevenção e atuação. Para alguns, será a Odontologia do futuro

Esse conceito pode ser aplicado em qualquer idade?

Sim, em qualquer fase da vida do paciente que precise de intervenção. A intervenção mínima é também uma estratégia psicológica, de bem-estar. Falamos de prevenção, mas também de atuação. A intervenção mínima é a intersecção entre detecção precoce, prevenção e atuação. Para alguns, será a Odontologia do futuro.

Como diagnosticar se é possível fazer uma intervenção mínima?

O ICDAS (Sistema Internacional de Detecção e Avaliação de Cárie) torna o diagnóstico e a detecção menos subjetivos. O diagnóstico clínico e o radiográfico são os mais eficientes. Mesmo um primeiro pré-molar permanente com score C ou 6 (muito severos) pode ser preservado sem agredir a polpa do dente. Fazemos uma remoção seletiva, mantemos o tecido e o dente é restaurado.

Como decidir pela remoção seletiva ou total do tecido cariado?

Estudos comparativos mostram que a longevidade do tratamento é a mesma nos dois casos. É preciso fazer uma análise para saber se a polpa é capaz de passar por um tratamento mais conservador ou radical. Sabemos que remover toda a polpa do dente pode provocar mais danos. É possível preservá-lo sem agredir a polpa apenas restaurando e recuperando sua estética e função. Colocar um selante resinoso sobre a dentina cariada afetada paralisa e bloqueia o avanço da cárie. É provável que tenhamos de fazer um reparo em um dado momento, mas isso está dentro da filosofia da intervenção mínima. A revisão é uma parte do processo, e fazemos a preservação máxima da estrutura do dente.

Esse conceito pode ser aplicado em dentes desvitalizados?

Não, principalmente quando as lesões são profundas. É preciso entender bem em que estágio se encontra a polpa do dente. O mais indicado no caso é o tratamento endodôntico, e existem correntes de mínima intervenção dentro da Endodontia.

Houve avanços técnicos nos materiais?

Usamos materiais já existentes como o cimento de ionômero de vidro, que passou a ser usado cápsula. A fotoativação dos selantes diminuiu nosso tempo de trabalho. Estamos fazendo pesquisas com materiais bioativos (Giomer) para conhecer seu efeito no meio bucal. Temos a Hall Technique, que utiliza uma coroa de aço para dentes decíduos. Mesmo tendo uma questão estética por serem metálicas, ela costuma ser aceita pelas crianças por seu aspecto mais lúdico. Na proposta de não intervenção, podemos também aplicar um cariostático à base de diamino fluoreto de prata, mas há uma desvantagem estética, pois o material é sensível à luz e escurece. As propostas precisam ser compartilhadas e decididas com o paciente. Temos que dar a opção de escolha.

Então são usados os mesmos materiais?

Sim, não há nada específico. Mesmo em relação aos instrumentais, os mais usados são a cureta e o escareador. Os profissionais precisam fazer uma reciclagem, devem se atualizar constantemente sobre a técnica.

Por que a Odontopediatria esteve mais à frente nesses estudos?

Nos últimos anos, a Dentística se voltou mais para inovações estéticas, enquanto um grupo de profissionais dentro da Odontopediatria se aprofundou em pesquisas de dentística e cariologia. A Odontopediatria tem um olhar voltado para a prevenção, a detecção precoce e técnicas de mínima intervenção. O conceito começa a ser mais entendido e aceito a partir do momento em que existirem mais estudos clínicos randomizados trabalhando com essas técnicas.

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