O que é uma radiografia tecnicamente boa?

Conceitos, interpretação e obtenção das radiografias no consultório dental

A pergunta do título acima é simples, mas sua resposta é bastante complexa. Uma boa radiografia deve conter estes três requisitos básicos:

  1. Nitidez máxima: detalhamento da anatomia dental, espaços medulares e corticais ósseas, feixes vasculo-nervosos e anexos.
  2. Distorção mínima: alongamento ou encurtamento da estrutura radiografada.
  3. Contraste médio: diferenciação de tonalidades na escala de tons de cinza.

Por meio de uma radiografia, é possível observar o interior de uma dada região do corpo humano. Desta maneira, é absolutamente fundamental ter um bom conhecimento anatômico, pois, para quem não conhece anatomia, a patologia torna-se adivinhação. Uma radiografia tecnicamente boa deve reproduzir com máxima nitidez a região de interesse (figuras 1, 2 e 3).

Deve-se lembrar que em uma radiografia sempre haverá distorção. É possível fazer um experimento simples para ilustrar esse problema: em um quarto escuro, projete a lanterna de seu celular sobre a palma da mão diante de uma parede. Quanto mais afastada sua mão estiver da parede, maior será a sombra (tamanho distorcido); quanto mais próxima a sua mão estiver da parede, mais próxima a sombra estará do tamanho real. É possível obter medidas a partir de uma radiografia, mas elas nunca serão exatas. As técnicas intrabucais — como as radiografias periapicais e oclusais — possuem menor distorção porque o filme está mais perto do reparo anatômico/elemento dental (objeto). Na radiografia panorâmica, uma técnica radiográfica extrabucal, como o filme/sensor está mais distante do objeto, há maior distorção.1, 2,3

Como as radiografias são projeções bidimensionais de um corpo tridimensional, haverá estruturas anatômicas sobrepostas. Também é possível fazer um experimento simples para entender o problema da sobreposição radiográfica: peça a uma pessoa que coloque uma mão sobre a outra e projete a luz de uma lanterna (já fixada/apoiada em algo). Observando apenas a sombra, você jamais conseguirá determinar qual mão (a esquerda ou a direita) está sobre a outra. Não é preciso ir muito longe para ter um exemplo clínico muito comum: localização de caninos inclusos por vestibular ou palatino. As leis da física continuam as mesmas. 2, 3, 4

Por fim, o contraste é uma escala de tons de cinza que variam do tom mais escuro para o tom mais claro. Utilizam-se o termo “radiolúcido” para estruturas escuras e o termo “radiopaco” para regiões claras, mas há uma infinidade de tonalidades entre essas nomenclaturas. Com médio contraste, existe melhor definição e diferenciação entre tecidos: há diferenças na tonalidade entre esmalte e dentina, ainda que ambos sejam radiopacos.1,3,4

ARMAZENAMENTO, COMPOSIÇÃO E PROCESSAMENTO (REVELAÇÃO) DOS FILMES RADIOGRÁFICOS

Armazenamento
Os filmes radiográficos e as soluções/líquidos de processamento (revelador e fixador) devem ser armazenados em locais livres de exposição ao sol e de extremos de temperatura — o ideal é que permaneçam em estoque em temperatura inferior a 24 ºC.

Composição do filme radiográfico
Existem várias marcas de filmes radiográficos disponíveis no mercado. O filme propriamente dito vem recoberto por um envoltório/lacre externo que o protege da luz solar — esse envoltório só pode ser retirado após o procedimento da tomada radiográfica, no interior da caixa reveladora. Se exposto à luz solar antes de ser revelado, o filme radiográfico perde sua utilidade. (figura 4)

No interior do envoltório, há o papel preto, a película de chumbo e, por fim, o filme. O papel preto tem por função ser camada interna de proteção adicional à luz solar. A lâmina de chumbo (superfície brilhante) protege a película de radiação secundária, no intuito de reduzir os ruídos, tornando a qualidade da imagem melhor. O filme radiográfico é o item de tonalidade esverdeada, composta principalmente de cristais de brometo de prata e gelatina. 1, 2, 3, 4, 5, 6

PROCESSAMENTO DO FILME RADIOGRÁFICO – SOLUÇÕES QUÍMICAS

Etapa crítica da obtenção da técnica radiográfica. Muitas escolas têm suas próprias filosofias e métodos de processamento (ou “revelação”) do filme radiográfico. Fica o registro do nosso respeito às diferentes e sérias vertentes de ensino sobre o tema. No intuito de facilitar o entendimento, os autores utilizam o método simplificado de processamento radiográfico valendo-se da câmara escura portátil, que contém, da esquerda para a direita:

Figura 5: Câmara escura portátil (Protecni ®) contendo os recipientes para revelador, água, fixador e água.

O processamento radiográfico simplificado tem quatro etapas, que correspondem à disposição dos recipientes colocados na caixa reveladora portátil. Antes dessas etapas, é muito importante que o lacre/envoltório externo seja removido no interior da câmara escura, e que esta esteja totalmente vedada para impedir qualquer contato da luz com o filme.

Etapa 1 – Revelador
Mergulhe o filme radiográfico no revelador por breves segundos – em média, de 20 a 30 segundos, podendo variar para mais ou para menos —, de acordo com as recomendações do fabricante. Sem abrir a câmara escura, não há problema em emergir a película do líquido revelador para checar visualmente, através da “face avermelhada”, se a imagem está sendo formada. Volte o filme ao revelador e aguarde mais alguns segundos. Cautela: tempo demais no revelador deixará a imagem escura demais; menos tempo na solução reveladora trará uma imagem clara em demasia.

Etapa 2 – Recipiente com água
Mergulhe o filme em um recipiente com água por alguns segundos, fazendo leves movimentos para remover o excesso de solução reveladora.

Etapa 3 – Fixador
Emergir o filme radiográfico no fixador e deixá-lo por, em média, 2 a 4 minutos. Essa solução tem por função, como o nome já diz, fixar a imagem da radiografia. Os resíduos de prata ficam em decantação nesta etapa. Se o filme não ficar por tempo suficiente no fixador, a imagem radiográfica obterá tonalidades esverdeadas ou acastanhadas.

Etapa 4 – Recipiente com água
Mergulhe o filme por alguns segundos, fazendo leves movimentos para remover o excesso de solução reveladora.

Ao fim das quatro etapas, lave o filme radiográfico novamente, desta vez em água corrente, por mais alguns segundos; deixe-o secar em superfície limpa e arejada — evite utilizar a seringa tríplice com ar, pois gotículas podem aderir ao filme e, se ele for armazenado dessa maneira, fatalmente perderá qualidade.

TÉCNICA DO PARALELISMO – POSICIONAMENTO E ENQUADRAMENTO DO FILME RADIOGRÁFICO

Para evitar distorções na imagem (encurtamento ou alongamento de estruturas), filme e dentes precisam estar paralelos entre si – daí o nome da técnica. Para atingir esse objetivo, os posicionadores radiográficos são amplamente utilizados porque facilitam a execução da tomada radiográfica.1, 4, 6

Figura 6: Filme radiográfico (linha pontilhada) colocado no posicionador. Nesta imagem é importante notar o paralelismo entre filme e dente. Adaptado de Teixeira Neto AD et al. 2017.

O filme é encaixado no posicionador logo atrás da borracha que acomoda a superfície oclusal dos dentes. O aro do posicionador, orientado para o meio extrabucal, funciona como “alvo” e o tubo de raios x deve estar posicionado em sua direção. (figura 7)

Não é necessário que os aros do tubo e do posicionador fiquem justapostos; uma leve distância é desejável para evitar o efeito de “meia-lua”. (figura 8)

Por convenção, o enquadramento das radiografias periapicais segue um padrão:

  • Em região de dentes anteriores, o longo eixo do filme é posicionado perpendicularmente ao solo.
  • Nas regiões dos dentes posteriores, o longo eixo do filme é posicionado paralelamente ao solo.
Figura 7: Encaixe de filme radiográfico no posicionador.
Figura 8: Posicionamento e enquadramento do filme radiográfico, aro do posicionador e tubo do raio x.

Os raios X foram descobertos há 130 anos. Desde então a evolução da tecnologia na obtenção da imagem foi incessante. Os filmes radiográficos foram se tornando cada vez mais sensíveis: se valem de menor dose de radiação e reproduzem imagens com maior nitidez. Foi então que, na década de 1980, os sensores digitais de raios X foram introduzidos no mercado.

As radiografias digitais dispensam o uso de líquidos reveladores e a necessidade de câmara escura; requerem uma dose de exposição ainda menor, além de permitirem a manipulação do contraste e do zoom por meio de softwares em computador. No entanto, com relação à qualidade de imagem, os métodos não possuem discrepância ou melhoria significativa quando comparados entre si. Há que se dosar o custo-benefício de acordo com a realidade do cirurgião-dentista e sua prática clínica; se bem realizados, os métodos convencionais de radiografia têm menor custo com praticamente os mesmos excelentes resultados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Mallya SM. Filme radiográfico. In: White & Pharoah radiologia oral: princípios e interpretação. 8ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2020.

2. Teixeira Neto AD, Dias FP, Medyk NAM, Costa MB. Manual de orientação das técnicas radiográficas intrabucais – periapical e interproximal [monografia]. Curitiba: Universidade Positivo; 2017.

3. Lascala AC, Mosca RC. Filmes e processamento radiográfico. In: Radiologia odontológica e imaginologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2006.

4. Tavano O. Filmes e métodos de processamento radiográfico. In: Radiologia odontológica. 1ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 1984.

5. Sargenti Neto S, Barriviera M. Técnica radiográfica. In: Tomadas de imagens em odontologia: guia prático para o técnico em saúde bucal. 1ª ed. São Paulo: Santos Publicações; 2026.

6. Larentir NL, Mahl CEW, Barbosa AN, Fontanella VCR, Matos AP. A prática do processamento radiográfico em odontologia: uma análise qualitativa. Rev ABENO. 2009 Ago;9(2):1-8.

André Yuri Rodrigues Simões

Cirurgião-dentista formado pela Universidade Bandeirante, com especializações em Radiologia Odontológica na USP e Ortodontia pelo Instituto Vellin

Jeferson Orofino Costa

Cirurgião-dentista radiologista na Papaiz, com pós-graduação em Radiologia Odontológica na USF e Endodontia na APCD Bauru

Luiz Roberto da Cunha Capella

Cirurgião-dentista formado pela USF – Bragança Paulista/SP, professor de Anatomia Humana, especialista em Radiologia e Implantodontia

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