

Quando os antidepressivos entram em cena
A escalada no uso de medicamentos para tratar transtornos mentais já modifica a rotina clínica e exige uma anamnese mais detalhada. Confira o que todo profissional de Odontologia precisa saber sobre o tema
A alta incidência de transtornos mentais na população global nas últimas décadas vem acompanhada de um aumento expressivo na prescrição de antidepressivos. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que, após a pandemia de Covid-19, houve cerca de 25% mais casos de ansiedade e depressão em todo o mundo enquanto o consumo de antidepressivos mais do que dobrou em diversos países nas últimas duas décadas, segundo a OCDE. Esse movimento já é perceptível na prática odontológica, tanto pelo número de pacientes que fazem uso desse tipo de medicamento quanto pela complexidade clínica associada ao cenário.
O professor Francisco Carlos Groppo, da área de Farmacologia, Anestesiologia e Terapêutica da Faculdade de Odontologia de Piracicaba, da Universidade Estadual de Campinas (FOP-Unicamp), também observa essa tendência. “Muitos pacientes relatam utilizar esses medicamentos para o controle da ansiedade, da dor ou de condições como síndrome do pânico, distúrbios do sono e depressão”, afirma. “Na clínica da FOP, cerca de 10% dos pacientes apresentaram desordens psiquiátricas ou do sistema nervoso central entre 2021 e 2022. Essas condições foram cerca de três vezes mais frequentes em mulheres”, destaca.
Na prática clínica e acadêmica, essa mudança já se consolidou como uma realidade. “É uma percepção global”, afirma Adriana Maria Calvo, professora da disciplina de Farmacologia da Faculdade de Odontologia de Bauru, da Universidade de São Paulo (FOB-USP). Após anamneses bem realizadas, relata a especialista, é possível notar o uso crescente de antidepressivos de diferentes classes, como sertralina, fluoxetina e bupropiona. “Há uma estreita relação entre o aumento dos diagnósticos de desordens depressivas e a expansão da medicalização dos pacientes, inclusive os de uso crônico”, diz ela.
De acordo com o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), os mais prescritos são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), como fluoxetina, sertralina e escitalopram. “Eles apresentam um bom perfil de eficácia e tolerabilidade”, explica. Há ainda os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN), neurotransmissores ligados ao humor, ao bem-estar e à disposição, e os tricíclicos, mais antigos, que costumam ter mais efeitos colaterais e permanecem mais restritos a indicações específicas.
Pode não ser uma relação tão óbvia, mas todas as classes de antidepressivos têm impactos importantes na saúde bucal e nos tratamentos que acontecem nos consultórios. “Uma preocupação ainda maior surge quando pensamos em pacientes polimedicamentados, onde as interações medicamentosas também podem levar a situações clínicas de maior complexidade”, destaca Calvo.
A BOCA SENTE
A implicação do uso desses fármacos na Odontologia pode ser direta ou indireta e envolve alterações fisiológicas e comportamentais, que influenciam diretamente o atendimento clínico. “Os efeitos diretos estão relacionados às alterações provocadas nos tecidos orais”, descreve o professor da Unicamp. Já os indiretos têm relação com as interações medicamentosas. “Ambos devem ser considerados, já que podem apresentar impactos significativos no prognóstico e até mesmo no transoperatório”, ressalta.
Os efeitos colaterais dos medicamentos variam de acordo com a classe a que pertencem, mas um dos mais frequentes é a xerostomia, condição popularmente conhecida como “boca seca”. Isso acontece porque alguns medicamentos interferem na regulação das glândulas salivares. De acordo com o psiquiatra Silva, esse efeito é provocado com mais frequência pelos fármacos tricíclicos, embora também possa ser causado, em menor intensidade, pelo uso de ISRS e de inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina.
A xerostomia tem inúmeras consequências para a saúde bucal. A redução do fluxo salivar pode aumentar o risco de cáries, já que diminui a proteção natural contra ácidos e a flora bacteriana, além de reduzir a lubrificação, alterar o pH e aumentar o acúmulo de placa bacteriana. “A falta de saliva piora a higiene oral e favorece a inflamação da gengiva (gengivite), que pode progredir para hiperplasia (aumento do volume), se não tratada”, indica a professora Adriana.
Segundo ela, esse sintoma também pode favorecer a alteração de paladar, levando a queixas de gosto de metal, salgado, amargo, ou mesmo à perda de paladar. Em alguns casos, as pessoas apresentam ardor, inchaços na gengiva e na língua, inflamação nas glândulas salivares, dificuldade para deglutir e o aparecimento de infecções oportunistas, como a candidíase, devido à modificação da flora natural.
Além disso, a condição interfere diretamente nos tratamentos odontológicos. “A xerostomia pode alterar a adesão de materiais restauradores, além de atuar negativamente na cicatrização tecidual após algum procedimento cirúrgico”, explica a professora.
Outro efeito frequentemente associado é o bruxismo, especialmente ligado a fármacos da classe ISRS. Esses medicamentos atuam aumentando a concentração de serotonina e noradrenalina na fenda sináptica, região onde os neurotransmissores são liberados e difundidos para transmitir sinais nervosos. Com isso, aumentam a disponibilidade desses neurotransmissores no cérebro e, entre outras ações, inibem as vias dopaminérgicas que controlam os movimentos da mandíbula.
“Clinicamente, o bruxismo pode ser identificado por desgaste dentário recente, dor muscular, principalmente no masseter e temporal, hipertrofia dos músculos mastigatórios e falhas ou quebras recorrentes em restaurações ou próteses”, descreve Calvo. A professora ressalta, porém, que o bruxismo, seja ele noturno, seja de vigília, é uma doença multifatorial, que não pode ser atribuída unicamente ao medicamento. Ela lembra, ainda, que os próprios transtornos mentais, como ansiedade, depressão ou insônia, elevam a prevalência. A tensão muscular e o ranger dos dentes passam a funcionar como formas de extravasar o estresse acumulado. “A própria doença também gera uma elevação significativa nos níveis de cortisol, o hormônio do estresse, prejudicando o relaxamento muscular”, acrescenta.
Além de identificar os efeitos diretos, o cirurgião-dentista precisa estar atento às interações medicamentosas, que podem alterar a segurança do atendimento. “Embora incomum, existe um pequeno risco de elevação da pressão arterial com o uso concomitante de antidepressivos tricíclicos e epinefrina, risco esse que aumenta com doses mais elevadas de epinefrina”, pontua o professor Groppo. Para ele, contudo, são ainda mais importantes as interações entre antidepressivos e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), principalmente em casos de uso prolongado. “Essas associações podem levar à hemorragia do trato gastrointestinal superior, como esôfago e estômago”, explica.

O uso de alguns antidepressivos pode ainda desencadear sobrecarga oclusal e levar a fraturas de restaurações, insucessos na osteointegração de implantes e lesões cervicais não cariosas. Mas há também um possível efeito positivo. “Embora usualmente o foco esteja na interferência negativa desses agentes na Odontologia, os antidepressivos, particularmente os tricíclicos, são uma alternativa para o tratamento da dor orofacial”, destaca. “Evidências mostram que esses fármacos têm efeitos relevantes em dores crônicas orofaciais”, acrescenta.
É PRECISO VER E OUVIR O PACIENTE
Diante desse cenário, a análise da história médica pregressa torna-se uma ferramenta ainda mais decisiva para o sucesso clínico. Para a professora Adriana, é uma etapa essencial para identificar quais medicamentos o paciente toma e quais interações podem ocorrer em decorrência das prescrições do cirurgião-dentista após os procedimentos odontológicos. “Devem ser feitas perguntas investigativas sobre os medicamentos em uso, como dosagem, tempo de utilização, possíveis alterações de prescrição pelo médico que o acompanha, e eventuais sintomas ou efeitos colaterais, principalmente boca seca ou ‘apertamento’ nos dentes”, orienta. “Muitas vezes, o paciente não sabe exatamente qual medicamento pode ter causado o efeito colateral, portanto, cabe ao cirurgião-dentista tentar identificar essa resposta na anamnese para projetar o tratamento e suas prescrições futuras com maior precisão”, completa.
Também cabe ao dentista reconhecer sinais clínicos muitas vezes subestimados, como desgaste dentário recente, mucosa ressecada, saliva espessa, gengivite persistente, falhas restauradoras recorrentes e dor muscular.
QUANDO O PACIENTE NÃO SE TRATA
Vale lembrar que não apenas a medicação, mas também o próprio transtorno mental pode afetar a saúde bucal. “Tão importantes quanto os efeitos do uso de antidepressivos na saúde bucal são os efeitos deletérios da depressão”, destaca Groppo. Segundo ele, quando a doença não é tratada, pode levar, por exemplo, a uma percepção negativa da própria aparência, incluindo descuido com a higiene oral e consequentemente cáries e doenças periodontais, entre outras condições.
A professora Adriana reforça que a saúde bucal deve ser levada muito em consideração em pacientes com quadros depressivos. O inverso também é verdadeiro. “Estudos associam a disbiose oral, que é o desequilíbrio na população bacteriana da boca, ao agravamento de casos de depressão”, pontua. “Alterações bucais não tratadas também podem agravar casos de depressão, pela disseminação de bactérias para órgãos distantes da boca, como o cérebro. Portanto, a xerostomia ou o bruxismo não devem ser motivos para a suspensão do uso de medicamentos antidepressivos, e sim um motivo a mais para o paciente ter acompanhamento odontológico mais incisivo para cada caso a ser tratado”, explica.
MUDANÇA DE ROTA
O avanço no uso de antidepressivos exige mudanças e um olhar atento e cuidadoso na prática odontológica, tanto no planejamento quanto na execução dos tratamentos. “O manejo dos efeitos colaterais deve ser individualizado”, afirma Adriana. Os sintomas e efeitos colaterais precisam ser observados e tratados. É possível, por exemplo, tratar os sintomas de xerostomia com o uso de saliva artificial ou estimulantes salivares ou, ainda, tratar as estomatites com terapia de laser ou outras medicações. “O uso de antidepressivos é uma realidade cada vez mais presente no consultório, e isso impõe ao cirurgião-dentista uma visão multifatorial”, acrescenta.
Nesse contexto, a integração com outros profissionais de saúde torna-se essencial. “É fundamental a comunicação com o médico assistente. Quando os efeitos colaterais apresentam impacto clínico relevante, o encaminhamento para a reavaliação do tratamento medicamentoso é apropriado”, diz o psiquiatra Silva. “O tratamento com antidepressivos envolve avaliação contínua de eficácia e tolerabilidade. Na presença de efeitos colaterais com repercussão clínica, inclusive na saúde bucal, o psiquiatra pode ajustar a dose, modificar o esquema terapêutico ou substituir o medicamento, conforme a necessidade individual do paciente”, completa. O objetivo não é a suspensão da medicação, mas a adequação da conduta odontológica e a integração do cuidado multiprofissional, garantindo mais segurança e melhores resultados clínicos ao paciente.

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