

Trauma dentário
Conceitos, interpretação e obtenção das radiografias no consultório dental
O trauma dentário é um dos desafios clínicos mais frequentes na prática odontológica, uma vez que exige tomada de decisão imediata para evitar complicações estéticas e funcionais. Diferentes tipos de lesão, desde fraturas coronárias leves até avulsões completas, apresentam necessidades clínicas específicas e demandam condutas precisas para garantir o melhor prognóstico.
Diante da relevância do tema no dia a dia do cirurgião-dentista, este artigo reúne os principais conceitos atuais sobre trauma dentário, condutas práticas e pontos críticos de atenção, favorecendo decisões seguras e alinhadas às evidências científicas que norteiam o manejo das lesões traumáticas.
INCIDÊNCIA E FAIXAS ETÁRIAS
A incidência dos traumatismos dentários é de 1% a 3%, enquanto sua prevalência é de 20% a 30%. No Brasil, mais de 22 mil pessoas sofrem lesões na face todos os anos, sendo 81% homens (CFO, 2025). Uma em cada 4 crianças já sofreu algum traumatismo dentário, enquanto um em cada 3 adultos foi acometido por esse tipo de trauma até os 19 anos. Essas lesões são mais frequentes até os 10 anos de idade, diminuindo gradualmente com o tempo e tornando-se raras após os 30 anos. Em dentes decíduos, as lesões de luxação são as mais frequentes, enquanto as fraturas coronárias predominam nos permanentes.1,2
CLASSIFICAÇÃO E ABORDAGEM CLÍNICA
Os traumatismos dentários, segundo as diretrizes da Associação Internacional de Traumatologia Dentária (IADT), são classificados de acordo com a complexidade do trauma e as estruturas envolvidas.3
- Fraturas coronárias de esmalte: as fraturas coronárias restritas ao esmalte incluem desde trincas superficiais até pequenas perdas estruturais. Trincas, em geral, não causam sintomas e raramente exigem tratamento. Quando há fratura de esmalte, é importante avaliar radiograficamente para excluir outras lesões. O tratamento pode envolver o polimento das bordas ou uma restauração em resina composta. Se o fragmento estiver disponível, a colagem oferece excelente resultado estético. O prognóstico é muito favorável, mas recomenda-se acompanhamento periódico para observar possíveis alterações pulpares tardias.3 (fig. 1)

- Fraturas coronárias de esmalte e dentina: essa condição pode ou não implicar a exposição da polpa. Nas fraturas não complicadas (em que apenas a dentina está exposta), o tratamento consiste em restauração ou colagem do fragmento. Nas fraturas complicadas (com exposição pulpar) em dentes imaturos, busca-se manter a vitalidade por meio de capeamento ou pulpotomia; em dentes com ápice fechado, decide-se entre terapia vital ou endodontia, conforme o aspecto do tecido exposto (qualidade do sangramento, hemostasia em até 10 minutos e a ausência de exsudato purulento). Apenas em casos de inflamação extensa, o tratamento endodôntico radical se torna necessário.4 (fig. 2)

- Fraturas coronorradiculares: nas fraturas coronorradiculares não complicadas, o paciente frequentemente apresenta dor à mastigação e mobilidade do fragmento. O tratamento envolve sua remoção e a avaliação da profundidade subgengival da fratura, com realização de restauração adesiva sempre que o término for acessível. Quando a fratura está localizada em nível mais apical, técnicas como extrusão ortodôntica, cirurgia periodontal ou reposicionamento cirúrgico podem ser necessárias para restabelecer o espaço biológico e possibilitar uma reconstrução adequada.3 Nas fraturas coronorradiculares complicadas, a exposição pulpar acrescenta complexidade ao manejo, exigindo ainda a avaliação criteriosa da condição pulpar e do estágio de desenvolvimento radicular. Aplicam-se as mesmas considerações para fraturas coronárias.4,5 (fig. 3)

- Fraturas radiculares: são lesões que envolvem dentina, cemento e polpa, e podem ocorrer nos terços cervical, médio ou apical. O manejo inicial consiste em estabilizar o fragmento coronário, permitindo a cicatrização do periodonto e do tecido pulpar. Fraturas no terço apical apresentam o melhor prognóstico, pois o fragmento coronário costuma permanecer estável.3 As fraturas no terço médio têm evolução variável de acordo com o grau de mobilidade que requer uma contenção semirrígida por algumas semanas, e tratamento endodôntico quando identificados sinais de necrose da porção coronária. Já as fraturas cervicais são as mais desafiadoras, com maior mobilidade e dificuldade de estabilização, o que aumenta o risco de necrose e a necessidade de abordagens mais complexas.5 (fig. 4)

- Lesões dos tecidos de suporte: as lesões dos tecidos de suporte variam em gravidade conforme o comprometimento periodontal. Na concussão, há impacto sem mobilidade ou deslocamento, exigindo apenas alívio oclusal e acompanhamento, com excelente prognóstico. A subluxação envolve mobilidade leve sem deslocamento, e pode causar sangramento sulcular, sendo indicada a estabilização opcional por curto período.5 (fig. 5)
Nas luxações extrusivas, o dente apresenta deslocamento parcial do alvéolo, o que demanda reposicionamento suave e contenção por até duas semanas. A luxação lateral caracteriza-se por deslocamento vestibular ou palatino/lingual com travamento ósseo, exigindo reposicionamento firme, contenção por até quatro semanas e acompanhamento prolongado. A luxação intrusiva envolve deslocamento axial no alvéolo, exigindo a espera por reerupção, tracionamento ortodôntico ou cirúrgico. Neste caso, há grande risco de reabsorção externa.3
A avulsão representa a perda completa do dente do alvéolo e requer reimplante imediato sempre que possível, seguido de contenção, antibioticoterapia e monitoramento rigoroso. Todas as lesões exigem acompanhamento clínico e radiográfico para a detecção precoce de necrose pulpar, reabsorção radicular e alterações periodontais, sendo o prognóstico mais favorável para dentes imaturos.6

PONTOS CRÍTICOS NO MANEJO E ACOMPANHAMENTO DO TRAUMA DENTÁRIO
Dentes traumatizados podem ter a vitalidade pulpar preservada, o que exige cautela, especialmente considerando que testes de sensibilidade podem apresentar resultados falso-negativos devido à perda de sensibilidade transitória que ocorre logo após o trauma. Portanto, a ausência de resposta a testes térmicos não deve ser interpretada como necrose sem outras evidências clínicas.7
Nas luxações, contenções excessivamente rígidas ou muito longas prejudicam o reparo periodontal e aumentam o risco de anquilose. Em casos de avulsão, o tempo para o reimplante, o meio de armazenamento e o manejo da raiz influenciam diretamente o prognóstico.6
Por fim, os controles após o trauma são fundamentais, pois muitas alterações pulpares e periodontais não se manifestam imediatamente. Recomenda-se reavaliar o paciente em 2, 4, 6–8 semanas, 3 e 6 meses, 1 ano e anualmente por até 5 anos.7
MEDIDAS PREVENTIVAS
A prevenção das lesões traumáticas dentárias envolve uma combinação de educação em saúde, proteção individual e intervenções ambientais que reduz a exposição ao risco. Muito recomendado pela literatura odontológica, o uso de protetores bucais é a medida mais eficaz para prevenir lesões na face em esportes de contato.
Ações preventivas podem incluir programas escolares, comunitários e esportivos para orientar e capacitar leigos para o primeiro atendimento. Essas medidas ampliam a prevenção e reduzem a incidência e a severidade dos traumatismos dentários.8
CONCLUSÃO
Os traumatismos dentários exigem avaliação precisa e intervenções criteriosas para preservar os tecidos dentários e de suporte. Condutas conservadoras reduzem o risco de complicações e favorecem o prognóstico a longo prazo. O acompanhamento regular é indispensável, pois alterações pulpares e periodontais podem surgir de forma tardia.
A orientação ao paciente e à população também desempenha papel essencial no manejo inicial, especialmente em situações de maior urgência. Assim, a combinação de prevenção, atendimento precoce e monitoramento contínuo é fundamental para o sucesso do tratamento dos traumatismos dentários.
BIBLIOGRAFIA:
1. Andersson L. Epidemiology of traumatic dental injuries. J Endod. 2013;39 Suppl 2:S2-5.
2. Levin L, Day PF, Hicks L, O’Connell A, Fouad AF, Bourguignon C, et al. International Association of Dental Traumatology guidelines for the management of traumatic dental injuries: General introduction. Dent Traumatol. 2020;36(4):309-13. doi:10.1111/edt.12574.
3. Bourguignon C, Cohenca N, Lauridsen E, Flores MT, O’Connell AC, Day PF, et al. International Association of Dental Traumatology guidelines for the management of traumatic dental injuries: 1. Fractures and luxations. Dent Traumatol. 2020;36(4):314-30. doi:10.1111/edt.12578.
4. Matoug-Elwerfelli M, ElSheshtawy AS, Duggal M, Tong HJ, Nazzal H. Vital pulp treatment for traumatized permanent teeth: A systematic review. Int Endod J. 2022;55(6):613-29. doi:10.1111/iej.13741.
5. Fouad AF, Abbott PV, Tsilingaridis G, Cohenca N, Lauridsen E, Bourguignon C, et al. International Association of Dental Traumatology guidelines for the management of traumatic dental injuries: 2. Avulsion of permanent teeth. Dent Traumatol. 2020. doi:10.1111/edt.12573.
6. Krastl G, Weiger R, Filippi A, Van Waes H, Ebeleseder K, Ree M, et al. Endodontic management of traumatized permanent teeth: A comprehensive review. Int Endod J. 2021;54(9):1221-45. doi:10.1111/iej.13526.
7. Krastl G, Weiger R, Ebeleseder K, Galler K. Present status and future directions: Endodontic management of traumatic injuries to permanent teeth. Int Endod J. 2022;55 Suppl 4:1003-19. doi:10.1111/iej.13672.
8. Brandini DA, Carvalho de Souza Cantão AB, Levin L. Public health policies in dental traumatology: A call for action! Dent Traumatol. 2024;40(6):612- 17. doi:10.1111/edt.12967.

Prof. Laila Gonzales Freire
Professora Doutora da Disciplina de Endodontia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP)

Prof. Carla Renata Sipert
Professora Associada da Disciplina de Endodontia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP)