Pesquisa e Tendências

Vacinação sem dor

Método inovador se revela prático e eficaz na aplicação de antígenos com o uso de fio dental 

Um estudo recente publicado na revista Nature Biomedical Engineering pode revolucionar a prevenção de doenças infecciosas. Pesquisadores da Universidade Texas Tech e da Universidade da Carolina do Norte testaram o fio dental como um veículo para a aplicação de vacinas.

O ponto de partida foi uma observação simples: a alta permeabilidade do epitélio juncional, tecido localizado na base do sulco gengival. Tal característica tem uma dupla função: servir de barreira à entrada de bactérias e patógenos (devido à alta concentração de neutrófilos) e facilitar a liberação de células do sistema imune para o combate de infecções (células dendríticas, células de Langerhans, células T, células B e macrófagos).

Outra grande vantagem do epitélio juncional é sua localização na cavidade oral, área já explorada para a vacinação sublingual. Além de ser de fácil acesso, ele apresenta pH próximo ao neutro, o que protege os antígenos de degradação e favorece a sua absorção.

COMO OS TESTES FORAM REALIZADOS

Durante dois meses, realizou-se a administração de fio dental revestido de moléculas vacinais diversas no epitélio juncional de camundongos. Foi escolhido um tipo de fio dental com superfície plana e sólida (fita dental) para garantir a distribuição uniforme do material, evitando sua perda nas fibras. Essa escolha se deve ao fato de que o uso de um fio estilo extramacio “super floss”, composto de uma rede de fibras mais esponjosas trançadas, poderia comprometer a retenção do material.

Para efeitos de comparação, outros grupos de camundongos receberam as mesmas moléculas vacinais por via sublingual e intranasal, com o objetivo de avaliar a absorção de substâncias pelo epitélio juncional e a eficácia da resposta imunológica entre os diferentes métodos de aplicação.

A pesquisa também mediu a capacidade de absorção do epitélio juncional em seres humanos com idades entre 18 e 50 anos que administraram o uso de fio dental com haste (para facilitar a autoaplicação) revestido de corante alimentício fluorescente.

RESULTADOS

A viabilidade do uso de fio dental foi comprovada em seres humanos, uma vez constatado que o corante fluorescente aderiu à gengiva de 59% dos participantes. O dado incentiva a continuidade dessa pesquisa com outras substâncias para testar a resposta imunológica. Algumas adaptações são recomendadas, como o aprimoramento do design da haste para evitar a perda de substâncias imunizantes na borda do aplicador e favorecer a absorção dos antígenos.

Em relação aos grupos de camundongos, o estudo atestou que a resposta imunológica foi mais eficaz se comparada à das aplicações sublingual e intranasal de vacinas. A nova alternativa apresenta mais uma vantagem em relação às vacinas intranasais, pois descarta o risco de o material ser direcionado para o sistema nervoso central pelo nervo olfatório, causa provável de alguns efeitos colaterais indesejáveis.

Dois resultados se destacam entre os diferentes materiais vacinais testados no revestimento do fio dental. Na aplicação do vírus inativo da gripe (que serve de modelo para vacinas contra a encefalite japonesa, a hepatite A e a poliomielite), todos os camundongos imunizados com três doses sobreviveram quando expostos a uma dose letal do vírus. O grupo controle de camundongos não vacinados apresentou 100% de letalidade.

Nos camundongos em que foi administrado fio dental revestido com um peptídeo da gripe ligado a nanopartículas para a proteção contra uma infecção letal causada pela gripe Influenza, houve um aumento de linfócitos T auxiliares em linfonodos cervicais, pulmões e baço e a potencialização de células secretoras de anticorpos na medula óssea.

VANTAGENS E DESVANTAGENS

O uso de fio dental apresenta as vantagens de ser indolor (por dispensar agulhas) e de facilitar a absorção do material vacinal pelo epitélio juncional em seres humanos, independentemente da idade ou da ingestão de alimentos e líquidos. O fato de ser prático, de fácil aplicação e aceitabilidade (67% dos voluntários se disponibilizaram a se vacinar dessa forma contra a gripe e o coronavírus) permite sua distribuição via Correios em contextos de contenção epidêmica, por exemplo.

Abre-se, ainda, a possibilidade de testar a eficácia do fio dental na aplicação de vacinas para a prevenção de HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, uma vez que a pesquisa descobriu que anticorpos foram reativados nas mucosas vaginal e gastrointestinal de camundongos.

A aplicação, no entanto, só pode ser realizada em pessoas que possuem dentes. Além disso, ainda não foram realizados testes em crianças sem dentes permanentes. Como a pesquisa se encontra em fase inicial, ainda não se sabe se o método pode causar danos ao tecido gengival ou outros efeitos adversos em seres humanos.

PARA SABER MAIS:

Ingrole RSJ, Shakya AK, Joshi G, Lee CH, Nesovic LD, Compans RW, et al. Floss-based vaccination targets the gingival sulcus for mucosal and systemic immunization. Nat Biomed Eng. 2026 Feb;10(2):370-89. doi:10.1038/s41551-025-01451-3.

PARA SABER MAIS:

Tang JW-Y, Hau CC-F, Tong WM, Watt RM, Yiu CK-Y, Shum KK-M, et al. Alterations of oral microbiota in young children with autism: unraveling potential biomarkers for early detection. J Dent. 2025;152:105486. doi: 10.1016/j.jdent.2024.105486.

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